domingo, maio 18, 2008

O peacemaker de Tavira!


A sua existência foi muitas vezes negada, mas o homem que levava mensagens trocadas entre o IRA e o Governo britânico existia mesmo - era o dono de um estabelecimento em Derry, na Irlanda do Norte, que prefere o Verão de Tavira...

Na entrevista ao Público, Brendan Duddy refere que nunca lucrou nada com a sua actividade, que punha em perigo a sua vida - nada para além de hoje sentir que cumpriu a sua missão. Conforme disse à BBC, "longe da Casa Branca ou do Kremlin, as coisas passavam-se de forma simples e informal" numa qualquer mesa de café em... Tavira!


Depois das sucessivas entrevistas à BBC, ao Guardian ou ao Belfast Telegrapher, entre muitos outros, um amigo tavirense reconheceu-o por uma fotografia colocada no Público em Março.

Agora, segundo ele próprio, chegou a altura de explicar uma participação que contribuíu para a consolidação da paz na Irlanda do Norte e para salvar muitas vidas!

PS - Não há por aí ninguém que tenha o tal telefone de Donostia ou o contacto de Osama Bin Laden?! Certamente, o mundo ficaria muito melhor! Já agora, que tal atribuir-lhe a Medalha da Cidade pelos serviços relevantes prestados à paz na Grã-Bretanha e à divulgação internacional de Tavira?!

2 comentários:

OBSERVADOR disse...

O contacto secreto entre Londres e o IRA tem nome, rosto e casa no Algarve

in Público, 18.05.2008, Maria João Guimarães (texto) e Pedro Elias (fotos)

A sua existência foi muitas vezes negada, mas o homem que levava mensagens trocadas entre o IRA e o Governo britânico existia mesmo - era o dono de um fish and chips em Derry, na Irlanda do Norte. Nunca lucrou nada com a sua actividade, que punha em perigo a sua vida - nada para além de hoje sentir que cumpriu a sua missão.
A Irlanda do Norte está em paz. E Duddy salvou muitas vidas.

Ainda hoje Brendan Duddy chega a um restaurante e se senta num canto de onde possa ver a porta. Apesar de não ter sido um espião, foi o contacto secreto, o único homem que durante mais de 20 anos levou as mensagens trocadas entre o Governo britânico e a liderança do Exército Republicano Irlandês (IRA), uma actividade, no mínimo, perigosa.

O segredo acabou agora, com uma entrevista que deu à BBC em Abril. Duddy decidiu contactar o PÚBLICO - quando estava em Tavira, já lá vamos - para fazer passar uma mensagem que acha essencial: deve-se dialogar com terroristas, mesmo que se abomine atentados que vitimam civis. Isto diz ele, que não suporta qualquer tipo de violência.
Brendan Duddy vive em Portugal, no Algarve, parte do ano, normalmente entre Abril e Novembro. Durante muito tempo, quando ainda não havia telemóveis e a casa onde ficava ainda não tinha telefone fixo, Duddy esperava todos os dias pelo menos duas horas num café de Tavira, com um telefone na mesa, por um eventual contacto de um dos lados. "O dono devia achar que eu era maluco", conta. "Um irlandês excêntrico. Mas deixava-me lá ficar, sentado na mesa, com o telefone ao lado." Ao longo dos anos, o telefone tocou muitas vezes. A diferença da língua - Duddy fala um português muito periclitante - ajudava a que não houvesse perguntas.
Ao P2, Duddy contou como o segredo e o peso da responsabilidade mudaram a sua vida, como foi ser o contacto entre uma organização secreta e porque decidiu revelar a sua vida.
Mas primeiro: como encontrou o PÚBLICO? A existência de um contacto entre o Executivo de Londres e o IRA, e a revelação da sua identidade, foi notícia na imprensa internacional, incluindo no PÚBLICO, onde foi publicada uma pequena fotografia de Brendan Duddy. Quando Duddy regressou a Portugal, em Abril, um amigo português mostrou-lhe o artigo - tinha-o reconhecido na fotografia e ficado a saber, pela primeira vez, da sua vida dupla. "Não perguntou nada - as pessoas têm respeitado e não perguntam - mas acho que ficou contente."

Pacifista convicto

Foi o próprio Duddy que decidiu contactar o jornal, para passar a sua mensagem, que é esta, repete: é importante falar com terroristas, mesmo que não se concorde com eles, mesmo que se abomine as suas acções.
Duddy é um pacifista convicto (apaixonado mesmo) e defende contactos com pessoas que matam. Não vê nisto qualquer contradição. "O que é preciso é perceber porque é que as pessoas chegaram ao ponto de matar", diz. "Mas isto não significa que se peça a alguém para compreender como é que é possível colocar uma bomba entre civis - eu não consigo perceber isso."
Conta exactamente desde quando é que é assim: "Um dia, tinha uma arma - na Irlanda toda a gente tem uma arma - e fui caçar. Ainda não havia a consciência da defesa dos animais, claro. Atirei, e acertei. A lebre ficou estendida no chão, o sangue a cair na neve branca." Nesse momento Duddy questionou o que tinha feito. "Fui enterrar a lebre, e guardei a arma. Nunca mais consegui suportar qualquer tipo de violência. Basta a ameaça, um soco num filme americano - não suporto."
Duddy relata outro episódio revelador, este não há tanto tempo: um dia apercebeu-se como a sua família poderá ter sofrido com a sua vida dupla. Para isso é preciso perceber a família de Duddy, hoje com seis filhos e 22 netos. Claro que a mulher e os filhos sabiam que qualquer coisa se passava. "Às vezes alguém que tinha aparecido no noticiário da noite da televisão como procurado estava lá em casa a tomar o pequeno-almoço." Mas, por mais extraordinário que pareça, "nunca perguntaram nada". Todos sabiam que quanto menos soubessem, melhor.
Enquanto Duddy se ocupava com as negociações entre os britânicos e o IRA, o restaurante de fish and chips de que era dono (e onde entregava mercadorias um jovem Martin McGuinness, que na altura "conversava com as miúdas e não estava absolutamente nada interessado política" e que foi depois um dos negociadores do IRA e da sua ala política, o Sinn Féin) tinha dificuldades. "Um dia, de repente, pensei no sacrifício que faziam a minha mulher e filhos. Nenhum dos meus filhos conseguiu ir para a universidade, nunca receberam amigos ou colegas em casa... O negócio corria mal, eles estavam assustados. Tudo estava sujeito à minha missão de paz. Não me tinha ocorrido que pudessem sofrer por causa disso."
Assim, um Natal, contou tudo. "Não disseram nada, nem que sabiam, nem que não sabiam. Para mim, foi um peso de culpa que me saiu das costas."
O dono de um restaurante de fish and chips nunca aceitou contrapartidas nem de um lado nem do outro. "Às vezes os agentes do MI6 queriam-me pagar um jantar. Eu não deixava."
A filosofia era não deixar aberta nenhuma brecha para nada - nem para se aproximar de um lado, nem para ser apanhado em alguma irregularidade. Por exemplo: "Nunca pude infringir a lei. Na altura, grande parte da população da Irlanda não pagava impostos. Eu pagava todos os impostos. Tinha os documentos todos em dia - não me passava pela cabeça não pagar uma multa de estacionamento. Fui um cidadão exemplar - só podia ser assim. Se não fosse, isso poderia abrir porta a grandes dificuldades. Já imaginou o que poderia acontecer se eu fosse preso?" Se do lado da ordem oficial ninguém sabia quem ele era, também do lado do IRA nenhum operacional sabia, apenas os dez comandantes da cúpula.
Na sala de estar
A vida dupla de Duddy começou com um pedido simples de um polícia católico seu amigo para que convencesse os responsáveis do IRA a não levarem armas para uma manifestação em 1972 - na qual acabariam por morrer 13 civis baleados por soldados britânicos, o célebre bloody sunday. Duddy previu uma guerra e quando, três anos depois, foi contactado por um ambicioso agente britânico, Michael Oakley, para ser o contacto com o IRA, aceitou.
Assim, durante mais de duas décadas, Brendan passou mensagens entre a liderança do IRA e o agente. Foi vendado e levado a conhecer os dez membros da liderança do movimento republicano e recebeu muitas vezes, na sua sala de estar na casa de Derry, representantes dos dois lados - e retirava-se a seguir. "Havia uma tentação de ficar e ajudar, mas não me cabia a mim resolver os problemas deles, esse não era o meu trabalho." Foi testado ouvindo falar de coisas que não queria ("informação demais pode custar-nos a vida") mas, garante, nunca foi sondado para ser um espião pelo lado britânico.
Ao início, "o mais difícil para mim, sendo um nacionalista irlandês, foi reconhecer o imperialismo britânico - foi difícil convencer-me a mim, e depois tentar convencer os outros". E também foi complicado convencer os republicanos de que o Governo britânico queria mesmo dialogar. A nível pessoal, "o maior problema durante todos estes anos foi manter o segredo - esse é um fardo que ninguém pode imaginar." Ajudou-o ser "uma pessoa espiritual". Tem uma religião "baseada no sânscrito oriental, perto do budismo", mas sem classificação formal. "Rezava todos os dias."
Ainda hoje, vai fazer uma hora de ioga de manhã e caminha longas horas à beira mar. "Em Portugal pensei muito, às vezes estava à procura de um ângulo e era cá que o encontrava", diz, olhando para o mar. Veio cá parar por acaso, como muitos estrangeiros, quando a mulher tirou umas férias, e diz que Tavira tem um papel muito importante na sua vida. "Adoro a sofisticação simples das pessoas", diz, medindo bem cada palavra. "Venho para cá sempre que posso."

Bê-a-bá da negociação

Quanto à negociação, Duddy sempre se guiou por algumas regras: dizer sempre a verdade, nunca aquiescer com violência ("nunca ninguém tentou que eu percebesse, nunca ninguém tentou justificar"), e tentar aproximar os dois lados. Porque, continua, "a maioria das pessoas que não bebe ou toma drogas reconhece uma posição razoável quando esta lhe é apresentada".
Mas, adverte, "falar com o terrorista que faz a bomba, o mais baixo na escala da organização, é como falar com um polícia que nos vai passar uma multa: é perder o tempo dele e o nosso". É importante chegar "a quem decide, com uma proposta, nunca com mentiras, nunca com subterfúgios".
"Há sempre uma outra maneira", garante. "Quem diz que não [se pode dialogar com terroristas] são os governos, os serviços secretos, a polícia." Mas, "na minha experiência, posso dizer que nunca conheci nenhum assassino psicopata". Assim, "devemos falar com terroristas, temos de falar. Não para concordar, não para aceitar qualquer tipo de violência, mas para tentar perceber o que levou a ela - e eles podem ouvir-nos ou ficar de fora." Não perceber a violência e condená-la não significa "demonizar" o outro lado. E este é outro princípio de Duddy: "Não demonizar as pessoas é o primeiro passo para tentar perceber."
Para quem diz que é imoral falar com alguém que ordena um ataque em que morrem milhares de civis inocentes, Duddy contrapõe: "Eu não consigo perceber como é que se põe uma bomba num mercado cheio de pessoas. Mas não é isto que eu quero compreender - o que eu quero compreender é o que há antes. A dificuldade é falar com uma pessoa que deu uma ordem de matar e dizer-lhe claramente que isso não vai trazer-lhe nenhuma recompensa. E uma coisa tem de ser certa: nunca há silêncio sobre a violência, nunca pode haver cumplicidade com um acto violento, nem pelo silêncio."
Às vezes "há momentos impossíveis", conta Duddy: "Dizemos-lhes [aos combatentes] para não ir buscar armas, mas eles dizem que vão. Muito calmamente, sem se irritarem. E vão."
Há momentos em que é impossível negociar, há outros em que parece mais fácil, mas Duddy acha que o princípio de que se deve dialogar aplica-se em todo o mundo, e a todos os grupos terroristas. "Não tenho dúvidas de que o Governo iraquiano deveria falar com a Al Qaeda, e que o afegão deveria dialogar com os taliban."
A si, pessoalmente, é raro que alguém o ataque por ter falado com terroristas. "Mas se o fizerem, eu posso dizer que salvei muitas vidas - muitas, nem podem imaginar."
Finalmente, porque escolheu Duddy esta altura para revelar a sua identidade, pouco antes da comemoração dos 10 anos dos acordos de sexta-feira santa (que ele, sim, ajudou a negociar)? "Há agora uma paz sólida na Irlanda, pela primeira vez. Há um ditado na Irlanda que fala de se esconder a arma no celeiro - nunca se sabe quando ela vai ser precisa." Duddy diz que, agora, já não vai ser mesmo precisa outra vez.

Albuquerque de Lima disse...

Acho que os "políticos" de Tavira não têm visão para tomar uma decisão dessas, ainda se fosse para homenagear alguém da família ou da clique, que perspective alguns votos em próximos actos eleitorais. E daí, num momento de inspiração, até podem surpreender-nos...

De qualquer forma, congratulo-me com a sua perspectiva e desejo que outros tavirenses alcancem o sentido da proposta!