sábado, novembro 29, 2008

Outros tempos...


Congelados algures no século XX, os comunistas portugueses reúnem-se hoje e amanhã numa Praça de Touros de Lisboa, para matar saudades da União Soviética e de Álvaro Cunhal...

Mais conservadores e ortodoxos, Jerónimo de Sousa e seus camaradas são confrontadas com o crescimento do Bloco de Esquerda e o renascimento da ala esquerda do Partido Socialista, as
Teses do XVIII Congresso apresentam-se como «um estímulo à reflexão colectiva sobre a situação nacional e internacional, a actividade do Partido e as principais orientações e tarefas para o futuro.»

Apesar de tudo, os media ainda dedicam largo espaço ao encontro, nomeadamente o Diário de Notícias que nos convida a uma viagem ao interior do PCP, mostrando um partido agarrado aos velhos princípios comunitários e aos valores da fraternidade socialista. No Público, esquematiza-se o pensamento comunista e tenta perceber-se donde vem a sua força...

Amanhã, durante a tarde, os futuros dirigentes do PCP serão eleitos à porta fechada. Vá lá saber-se porquê, embora o número de listas concorrentes possa explicar... tanta discrição!

Actualização - Parece que o Algarve também esteve representado. Segundo a TSF, as estrelas maiores foram Odete Santos e um camarada enviado de Cuba... mesmo de Cuba!

3 comentários:

OBSERVADOR disse...

De onde vem a força do "pê cê"? Da base sindical e da sua história

In Público, 29.11.2008, São José Almeida

O XVIII Congresso do PCP começa hoje. Depois da derrocada do Leste, o PCP mantém uma influência invejável. O PÚBLICO explica porquê
Passados 18 anos sobre a queda do Muro de Berlim, o PCP - que, de hoje até segunda-feira, realiza o seu XVIII Congresso, no Campo Pequeno, em Lisboa - mantém-se como um caso raro de partido que, permanecendo leal ao marxismo-leninismo, não só não se esfumou na turbulência da derrocada dos regimes socialistas de Leste, como tem uma invejável influência social, política e eleitoral, surgindo até nas sondagens e estudos de opinião com hipóteses de recuperação de eleitorado.
Os motivos desse sucesso são múltiplos e têm causas tanto recentes como longínquas e históricas.
Para o dirigente do PCP Ruben de Carvalho, entre as razões recentes e conjunturais surgem factores como "a democracia interna do partido" e a sua "visão humanista e solidária da actividade política". Por outro lado, considera que "as pessoas sabem que o PCP faz o que diz" e tem um desempenho nos cargos públicos e nas autarquias que "fala por si". Já a viragem à direita da governação PS está entre as causas conjunturais apontadas pelo politólogo André Freire.
Uma questão de identidade
A grande causa da capacidade de influência do PCP atribui-a Ruben de Carvalho a razões históricas e de identidade. "A questão da origem desempenha um papel na sua ligação à classe operária, até porque a sua origem é diferente da dos partidos comunistas europeus, que cindiram da social-democracia", sustenta Ruben de Carvalho ao PÚBLICO, lembrando a raiz anarco-sindicalista do PCP.
Por outro lado, Ruben de Carvalho recorda que o PCP, "para além do paralelismo com o campo socialista, tem profundos traços nacionais", o que, na sua opinião, se deve também às características do país: "O PCP nasce, em 1921, num país com uma classe operária jovem e pouco industrializado, ao contrário do PC alemão ou do francês". E frisa que o PCP tem influência junto do operariado agrícola, precisamente devido à peculiaridade da sua génese e afirmação ao longo das décadas.
Ruben de Carvalho salienta ainda a afirmação do PCP ao longo da sua história. "A luta antifascista e a clandestinidade foram muito importantes e mantiveram os traços dessa origem e dessa identidade que perdura até hoje em factores como o respeito pela regra de ouro" de uma percentagem do comité central ter de ser composta por pessoas de origem operária ou camponesa, destaca. Assim, "a ligação operária e a influência do PCP nos sindicatos são consequências dessa causa. Basta lembrar que, durante o fascismo, o PCP esteve sempre nos sindicatos nacionais e que a Intersindical foi criada nessa época", frisa Ruben de Carvalho, concluindo que "até Pacheco Pereira, na biografia de Álvaro Cunhal, reconhece que há no PCP profundos traços nacionais".
Em declarações ao PÚBLICO, Pacheco Pereira considera que "os partidos comunistas, na sua generalidade, eram essencialmente um braço da política externa soviética, como é o caso do inglês e do americano, e desapareceram com o fim do Leste. Os que sobreviveram tinham dimensão nacional".
Porta-voz dos protestos
É essa dimensão nacional que este historiador especialista em PCP diz ser responsável por este partido ser um "porta-voz de sectores da sociedade que não têm outras" formas de representação ou de identidade, ou seja, o PCP "tem uma dinâmica de representação da terceira idade, dos reformados das fábricas e dos campos" e é "a voz pública de defesa desses interesses" - refira-se que 34,9 por cento dos militantes têm mais de 64 anos.
Pacheco Pereira atribui a essa identidade operária industrial e rural histórica do PCP o seu recente aumento de militância e de expectativa de votos. "Jerónimo de Sousa permitiu recuperar parte do eleitorado, que voltou a reconhecer-se no PCP", diz o historiador, acrescentando que "os jovens aderem também por um factor comunitário de identificação; muitas vezes, o PCP é a identidade da terra".
Ora, "estes sectores são por natureza conservadores, fazem parte de uma economia que desapareceu", por isso "não querem que o PCP mude" que "se modernize, liberalize". E conclui: "O PCP é um dos partidos com maior sucesso na reconversão de partido com base nacional, acompanhado pelos partidos comunistas da Grécia, de Chipre e da Finlândia".
Já o politólogo André Freire considera que "o sucesso da resistência do PCP é relativo" e é verificável apenas "em comparação com outros partidos comunistas". "[Mas] se pensarmos que já perdeu bastante peso eleitoral, que já foi bastante mais forte, atingindo os 20 por cento no final dos anos 70, não se pode assim ignorar o refluxo acentuado e progressivo." Por outro lado, André Freire frisa que a aparente melhoria eleitoral recente está ligada no tempo com o fim das tentativas de abertura, nomeadamente o Novo Impulso, de Luís Sá e Carlos Carvalhas. "Do ponto de vista político, houve um refluxo com a eleição de Jerónimo de Sousa", salienta ao PÚBLICO.
André Freire considera sobretudo surpreendente no PCP o facto de este partido ter "uma performance nos últimos 30 anos de quem parece nunca querer chegar ao Governo nacional e adopta apenas um registo protestatário", isto quando, "na democracia, os partidos devem competir pelo Governo e fazer inputs na governação".
Mas é esse lado de protesto, associado "à ancoragem social, nomeadamente aos sindicatos", e ao facto de ser "o partido que, em Portugal, mais se aproxima do partido de massas e funcionar assim com um fundo de colectividade identitária e cultural", que André Freire considera estar na origem do sucesso e da influência do PCP. "É isso que o torna menos permeável aos refluxos da conjuntura."

Sucesso político e influência social não garante mais votos
29.11.2008
São José Almeida

a A influência social, política e eleitoral do PCP tem saltado aos olhos nos últimos estudos de opinião, sondagens e até lutas sectoriais por reivindicações de direitos e manifestações de rua.
O partido que nas eleições legislativas de 2005 obteve 7,8 por cento dos votos, cativando mais de 432 mil eleitores, e elegeu 14 deputados à Assembleia da República, no âmbito da coligação com o PEV, tem surgido com uma intenção de votos que chega a duplicar este seu último resultado.
Este fenómeno, porém, não garante automaticamente que o PCP possa subir em número de votos em 2009, alerta o especialista em sondagens Pedro de Magalhães e o politólogo André Freire.
Isto porque, num momento em que, "na governação, o PS abriu à direita", é normal que parte do eleitorado afirme a intenção de votar PCP ou Bloco de Esquerda, mas isso não significa que essa intenção se mantenha e o PCP tenha uma subida radical. Mas não deixa de frisar: "Nem que seja por protesto, há pessoas que poderão estar disponíveis para mudar de voto.
Também Pedro Magalhães declara ao PÚBLICO que "é uma incógnita o que poderá acontecer nas próximas legislativas com o PCP. Isto porque, por um lado, o partido tem "o eleitorado fiel, seguro, que permite obter bons resultados, sobretudo se a abstenção aumentar".
Pedro de Magalhães sublinha que, devido à força do seu núcleo duro, o PCP é dos partidos que menos erosão eleitoral sofrem e mais beneficia da abstenção. Mas alerta que há que ter em conta também o que acontecerá para lá do PCP. Ou seja, há que estar atento ao comportamento do PS. Isto porque, para Pedro de Magalhães, "o PS poderá até acabar por não perder muitos votos", se, na altura das eleições, houver, por parte dos socialistas, "um quadro de dramatização" e "os eleitores de esquerda temerem que a direita possa ganhar".

OBSERVADOR disse...

PCP reafirma convicções comunistas e centra críticas no Governo socialista

In Público, 30.11.2008, Maria José Oliveira e São José Almeida

Jerónimo de Sousa afirma perante os 1500 delegados ao congresso que o Governo
e o Presidente da República estão ao serviço da "agenda do grande capital"
O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, que hoje será reeleito no cargo, abriu ontem o XVIII Congresso do partido, com um discurso de hora em meia, em que centrou as críticas na actuação do Governo do PS, acusando-o de agir de forma concertada com o Presidente da República, Cavaco Silva, e de acordo com "a agenda do grande capital".
Perante os 1500 delegados que se reúnem até amanhã no Campo Pequeno, em Lisboa, o líder comunista reproduziu, em forma de síntese, o conteúdo da proposta de resolução política a aprovar hoje.
Jerónimo de Sousa começou por defender que a "formação do Governo", em 2005, e a eleição de Cavaco Silva, um ano depois, traduziram "no plano político institucional a afirmação e consolidação de um bloco de poder ao serviço dos grandes grupos económicos e financeiros".

O "selim" do capital
Acusando o Governo de José Sócrates de ter dado continuidade e aprofundado as políticas de direita do PSD e do CDS, Jerónimo de Sousa chegou ao ponto de considerar que a actuação do PS no Governo faz inveja aos partidos de direita, para apresentar o PCP como a única alternativa fiável.
"Com uma direita complacente e com uma ponta de inveja por verificar que o poder económico continua a considerar o PS como o selim mais apropriado para cavalgar nos seus interesses e privilégios", afirmou o líder dos comunistas portugueses, acrescentando que "o PCP demonstrou ser de facto a força que, de forma mais coerente, mais consequente e mais capaz, dá combate a esta política".
Considerando que a crise económica e financeira que se vive é comparável à Grande Depressão de 1929-33, Jerónimo de Sousa fez uma declaração de fé sobre as responsabilidades futuras do Movimento Comunista Internacional, que está em reorganização, e a sua actuação para superar a crise do capitalismo e o próprio capitalismo.
"Cabe ao Movimento Comunista e revolucionário desenvolver a mais ampla cooperação de forças progressitas e revolucionárias anti-imperialistas, combatendo o reformismo e o espontaneísmo, e dando vigoroso combate à ideologia dominante".
E garantiu que o PCP se mantém fiel à "sua teoria revolucionária, materialista, dialéctica criativa, contrária a toda a dogmatização e cristalização", e à "sua natureza de classe", com o "objectivo de construir uma sociedade nova onde sejam banidas a exploração, a opressão, as injustiças do capitalismo, a sociedade socialista".

O "catecismo neoliberal"
A recessão mundial e os "malefícios" da economia capitalista foram também tema da intervenção de Carlos Carvalhas, antigo secretário-geral do PCP (1992-2004), cuja subida ao púlpito foi acolhida pelos delegados com muitos aplausos.
Carvalhas notou que as soluções para a crise corporizam uma "mistificação ideológica", uma vez que "as propostas que pretendem apaziguar a opinião pública" mantêm os princípios do "catecismo neoliberal".
O economista não poupou ainda críticas àqueles que, perante a contracção da economia capitalista, procuraram soluções (as nacionalizações) outrora "diabolizadas".
"Até Sócrates se tornou socialista e chegou a afirmar que não colocaria as poupanças dos reformados na bolsa", disse. E acrescentou que o mundo assiste agora a uma "amnésia geral", já que os teóricos da "ladaínha neoliberal" são "aqueles que são chamados para dar soluções".

"Álvaro Cunhal faz-nos falta!"
30.11.2008
"Por muitas voltas que o mundo dê, será o socialismo e o comunismo o futuro da humanidade." A manifestação de convicção foi ontem proclamada no Campo Pequeno, em Lisboa, num vídeo de Álvaro Cunhal, líder histórico do PCP, falecido a 13 de Junho de 2005. Com os delegados e convidados em absoluto silêncio e de olhos colados no ecrã instalado em cima da mesa do Congresso, foi projectado um vídeo de homenagem aos dirigentes de topo falecidos depois do último congresso - Sérgio Vilarigues, José Vitoriano e Álvaro Cunhal.
O vídeo traçou o percurso do PCP desde a sua fundação em 1921, intervalando imagens históricas com declarações de Cunhal em momentos- -chave, como a chegada a Lisboa, após o 25 de Abril, e o primeiro comício no Campo Pequeno, em 1974. E, claro, mostrou também imagens da imensa manifestação que foi o seu funeral. O tom de glorificação foi assumido. Assim como o sentimento de orfandade. Tanto que Cândido Mota , a voz off do documentário, desabafou: "Álvaro Cunhal faz-nos falta!" O Campo Pequeno irrompeu numa ovação de largos minutos.
Já da parte da manhã, duas das maiores ovações, com a sala de pé, de punho direito erguido, e aos gritos de "A luta continua!" e de "PCP, PCP!", surgiram quando Jerónimo de Sousa evocou os dirigentes de topo falecidos: Sérgio Vilarigues, José Vitoriano e Álvaro Cunhal. Para mais à frente recordar o funeral de Álvaro Cunhal e levantar de novo a sala: "A grandiosa homenagem ao camarada Álvaro Cunhal que constituiu o seu funeral, foi uma genuína tradução do reconhecimento pelo seu papel de intervenção política, ideológica, cultural e partidária, de identificação com os valores e ideias de Abril".

OBSERVADOR disse...

PCP rejeita "frentismo" com Manuel Alegre e BE

in DN, Editorial, 2008.11.30

Jerónimo de Sousa identificou ontem muito claramente qual pode ser o maior obstáculo ao crescimento de um PCP (que resistiu como nenhum outro partido "ortodoxo" face às tentativas dos renovadores internos) nas próximas eleições legislativas: o aparecimento de um qualquer "frentismo" de esquerda que englobe Manuel Alegre e o Bloco de Esquerda, ex-comunistas e alguns ainda militantes, se a associação informal que organiza o Forum das Esquerdas a 14 de Dezembro evoluir para uma organização concreta com peso eleitoral.

Com Carvalho da Silva, ainda militante comunista mas participante no Forum das Esquerdas, a anunciar - como fez ontem ao Expresso - que não ficará parado, em termos políticos, quando abandonar a CGTP, há evidentemente "qualquer coisa no ar" que preocupa o secretário-geral do PCP. Há algum tempo, inopinadamente, Jerónimo admitiu uma "convergência de esquerda" que podia incluir o Bloco, desde sempre o inimigo número 1. Mas ontem, na abertura dos trabalhos do Congresso, foi reposta a "legalidade": esquerdas alegres e bloquistas são "social-democratizantes" e favorecem "as políticas de direita", sustenta Jerónimo. E o PCP, por via das dúvidas, anunciou ontem apresentar um candidato próprio nas presidenciais de 2011. Manuel Alegre enerva o PS - José Sócrates não resistiu ontem a enviar farpas irónicas durante a reunião da Comissão Nacional - mas, obviamente, não só o PS. (...)