segunda-feira, setembro 08, 2008

Res publica... sem fronteiras!


O Centro Cultural de Belém foi o palco escolhido para a apresentação da Fundação Res Publica, criado para abarcar uma bem variada panóplia de esquerdas...

Segundo o
Público, o espaço escolhido foi pequeno para albergar todos os que não quiseram faltar ao arranque da estrutura resultante da fusão de duas fundações antigas do PS e ao "regresso" de António Vitorino à política interna. O Jornal de Negócios sublinha que aquela servirá para atrair os melhores do país para a proposta política do PS e o Expresso sublinha os contributos esperados para a renovação das políticas públicas...

Segundo o
PS, a Fundação tem por objectivo o estudo e o debate das políticas públicas, resultando de um compromisso aprovado no último congresso nacional do Partido Socialista: «a constituição de um verdadeiro instituto de estudo das políticas públicas, a partir da experiência das actuais Fundações na área do PS. Um instituto que contribua para a modernização do PS e do sistema português de partidos».

De acordo com os estatutos e as estruturas que a compõem, a actividade da Fundação concretiza-se em três planos fundamentais. No quadro do Centro José Fontana, desenrola-se a relação com o mundo sindical. No âmbito do Centro Antero de Quental, promove-se a formação autárquica. Finalmente, caberá ao Instituto de Estudos Políticos a promoção de estudos e debates; a organização de acções de formação; e a edição, designadamente da revista Finisterra.

O Conselho de Administração da Fundação é presidido por António Vitorino. Augusto Santos Silva (Estudos Políticos), Helena André (Estudos Laborais e Sindicais), José Augusto Carvalho (Estudos Autárquicos) e Pedro Marques (pelouro financeiro e administrativo) são os restantes membros que compõem a Administração. Está marcado o arranque da campanha para as Legislativas de 2009!

1 comentário:

MMC disse...

'THINK? NO, THANKS'

por Manuel Maria Carrilho, in Diário de Notícias, 2008.09.13

Entre nós a política pensa pouco, como se também aqui a nossa "modernidade", mais do que romper com a tradição nacional autoritária e conformista, tenha acabado por se acomodar discretamente a ela.

As consequências disto não podiam, naturalmente, deixar de ser negativas. Que o digam os partidos políticos, alvo de um descrédito que revela o fosso que se tem aprofundado entre, por um lado, as suas características e práticas e, por outro lado, as dinâmicas sociais, as expectativas das comunidades e os valores individuais.

Foi a esta situação, e ao défice de abertura e de qualificação em que ela se traduziu, que tentaram dar resposta, tanto Cavaco Silva, quando recorreu na passada década de 80 a diversas personalidades independentes, como António Guterres, quando procurou dar uma solução mais estrutural a este problema com os "estados gerais" de 1994/95.

Foram esforços importantes, porque onde não há conhecimento, domina a ignorância. E o cocktail do poder com a ignorância - que tem sido frequentemente servido em Portugal - é sempre, como Maquiavel sabiamente sublinhou, o mais fatal de todos, seja qual for época ou o país em que ocorra.

Infelizmente, nenhum destes esforços teve consequências orgânicas nos respectivos partidos, nem inspirou inovações nos outros. E assim se foi consolidando entre nós um singular vanguardismo que, embora em graus diferentes, caracteriza hoje todos os partidos, do CDS ao BE. Vanguardismo que, mais do que uma posição ideológica, é hoje sobretudo um tique defensivo de partidos muito fechados em si próprios e nos seus interesses, com pouco mundo e tão desfasados da realidade como desligados da sociedade. Mas que, iludindo tudo isto, pretendem mudar o país e o mundo!

Acontece que o fosso, entretanto, aumentou: os valores, os comportamentos e as expectativas da sociedade e dos indivíduos, na enorme diversidade das suas dinâmicas, colidem cada vez mais com os interesses, os procedimentos e as ambições dos partidos, seja qual for a sua matriz ideológica.

Por isso a sua credibilidade se afoga sem remissão: bem podem os partidos afirmar que querem mudar e melhorar a sociedade. Enquanto o fizerem de um modo que revela um grande desfasamento em relação a ela, e um escasso conhecimento dos seus problemas, a erosão da sua credibilidade continuará.

Tornou-se assim imperativa uma grande mudança, e ela tem de se fazer num triplo sentido: de uma autêntica abertura à sociedade, de um real conhecimento dos seus problemas e de uma efectiva capacidade de inovar. Os partidos terão, se quiserem voltar a ser respeitados e ouvidos, que se transformar num misto de antenas da sociedade e de laboratórios de ideias. Têm, em suma, que voltar a ser agentes de uma verdadeira oferta política: de valores e de desígnios, de propostas e de ideias.

Dadas as naturais dificuldades em encontrar no seu interior a inspiração, a vitalidade e as competências necessárias a esta transformação, os partidos europeus que procuram renovar-se têm-se articulado com think-tanks independentes, que são animados por universitários e investigadores de sólida reputação. Ou, quando isso não é possível, criado os seus próprios think-tanks, mas dando-lhes um perfil de inconformismo, de competência e de autonomia que os torne interessantes, úteis e credíveis.

Só se pode, pois, saudar a criação do think-tank da Fundação Respública, lançado esta semana, que se espera que (sem prejuízo das suas óbvias e mais imediatas missões de natureza eleitoral) se consiga colocar ao nível daqueles que hoje marcam o ritmo do debate político europeu, como se pode ver clicando nos sites do Policy Network, do Gaucus, do Demos Europa, da Fundación Alternativas, do Terra Nova, do Entempsréel, da Fundation Jean-Jaurès, do Astrid, entre alguns outros.

Hoje, na Europa dos 27, só há quatro governos socialistas: Portugal, Espanha, Inglaterra e Noruega. E os seus líderes mais influentes (Sarkozy e Merkel) são de direita. Esta situação retrata bem a crise estrutural do modelo do socialismo (ou social-democrata) europeu, que se traduz não só na seu embaraço em responder à aceleração da globalização no decurso da última década, mas também na sua dificuldade em reformular o Estado-providência, em repensar a fiscalidade e a relação dos cidadãos com o imposto numa base igualitária, ou em encontrar respostas convincentes ao generalizado empobrecimento da democracia.

Estes são alguns pontos de uma agenda incontornável. A que podemos acrescentar o imperativo ambiental, nas difíceis condições energéticas que hoje vivemos. E a decisiva (e tão esquecida) matriz cultural de que decorrem a identidade nacional, a cumplicidade europeia e as raízes mundiais de Portugal, sem a qual, como diz Manuel Castells, toda a tecnologia acaba sempre por se revelar uma fugaz ilusão tecnocrática.