terça-feira, junho 14, 2005

Dupla homenagem


Junho parece ser fatal para as personalidades que edificaram a história portuguesa do séc. XX. Em 2004, levou-nos António de Sousa Franco, Maria de Lurdes Pintassilgo e Sophia de Mello Breyner. Agora, de uma assentada, ficámos sem Eugénio de Andrade, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal!

Depois de lembrarmos a figura de Eugénio de Andrade, destaquem-se as figuras marcantes da luta contra a ditadura do Estado Novo e da Revolução de Abril, ligadas indelevelmente ao Partido Comunista Português. Recordem-se aqui o general que foi Primeiro-Ministro em quatro oportunidades entre 1974 e 1975 e o líder carismático que nunca chegou ao poder...

Afastado da política activa após o 25 de Novembro, idolatrado por uma multidão de admiradores, o "companheiroVasco" continuaria a defender os ideais e os princípios que haviam determinado a sua participação na Revolução de Abril, procurando transmitir às novas gerações uma visão que o tempo não desvanecerá...

Para a história de Portugal, de Álvaro Cunhal ficarão igualmente os contributos da acção política e do pensamento de um revolucionário onde coexistem o ideólogo, o estadista, o estratego, o dirigente partidário e o intelectual "que consegue contemplar o movimento da história atento ao imediato e simultaneamente com o distanciamento e a serenidade de um artista", nas palavras de Urbano Tavares Rodrigues.

Cruzei-me com ele em 1991, tendo tido a oportunidade de entrevistá-lo sobre o momento político e ficou a impressão do Homem que, com altivez e dignidade, assistia ao desmoronar de um sonho. Poucos meses depois, abandonava a liderança do PCP e abria o caminho aos mais novos...

1 comentário:

Anónimo disse...

Muito se disse esta semana sobre Álvaro Cunhal devido à sua morte.

Para mim, em síntese, o antigo líder do PCP é sinónimo de coragem e coerência de vida.

O brilhantismo da sua personalidade só teve um problema, a nível político a História negou o projecto da sua vida a nível interno e a nível internacional.

A liberdade que hoje usufruímos deve-se muito a ele. Deve-se também a outros, mas ele não ficará nunca do lado de fora. Foi resistente, combateu a ditadura, como poucos. Depois do 25 de Abril e apesar dos tempos conturbados, num momento vital para o futuro do nosso País, percebeu que não podia ultrapassar a vontade maioritária dos portugueses.

Como pessoa, guardo dele uma memória positiva e de profundo respeito.

Provocou paixão e ódio. Agora, que desapareceu fisicamente, cabe--nos a nós respeitar a sua imagem. Sem rancor nem idolatria, mas com uma certeza Portugal perdeu um dos seus melhores. (...)