quarta-feira, junho 08, 2011

Tempos de reflexão… e decisão!

(Publicado no semanário BARLAVENTO na edição de 8 de Junho de 2011)

No epicentro de uma crise internacional que teima em persistir e após um processo eleitoral atabalhoado, Portugal resolveu virar à direita.

Como consequência dos resultados eleitorais, José Sócrates sai de cena e deixa aos socialistas a dura tarefa de liderar uma oposição de esquerda que nunca esteve unida.

Tal como em 2002, aproximam-se tempos de reflexão que dispensam o pragmatismo da actividade governativa e obrigam o PS a centrar o seu discurso político nos princípios e valores do socialismo democrático e da social-democracia.

Primeiro responsável pelo acordo com as instâncias internacionais que afastaram o cenário da bancarrota, ao PS cabe agora garantir o seu bom cumprimento após esta pesada derrota no país e, especialmente, no Algarve.

Graças ao sentido de dever cumprido de José Sócrates, a sua substituição poderá constituir-se como um processo de construção do futuro e de criação de um modelo alternativo de governação, que permita ao centro-esquerda voltar a afirmar-se na sociedade portuguesa.

Antes da escolha do líder, os socialistas devem preocupar-se em recuperar os laços perdidos com a sociedade civil e os movimentos sociais, partilhando com eles essa tarefa hercúlea de redefinir um modelo de desenvolvimento sustentável.

Felizmente, o PS detém entre os seus quem saiba assumir-se como uma oposição responsável e fazer as pontes para o futuro, quem seja capaz de restaurar a confiança dos portugueses e alimentar a esperança dos militantes e simpatizantes.

Hoje, como sempre, cabe aos quadros e aos militantes do PS afastar quem errou (… e voltou a errar, apesar dos oportunos avisos!) e encontrar soluções de futuro assentes num processo de avaliação dos resultados alcançados nos últimos anos. Tal só é possível com organização, rigor e trabalho.

Afastados do poder central, os socialistas ainda detém responsabilidades enormes no poder regional e local, onde devem procurar ser coerentes com os seus princípios e valores, concentrando a sua intervenção nas áreas sociais e dando o seu contributo na dinamização da economia.

Independentemente da vitória da direita neoliberal e populista, os resultados destas eleições exigem uma atenção redobrada aos novos movimentos que reclamam uma refundação da democracia e das formas de participação política.

Através da abstenção e do voto em branco ou nulo foram muitos os que disseram basta a uma forma estafada de fazer política, concentrada nos ressentimentos do passado e pouco habituada a debater o futuro.

Apesar de estarem na moda, as redes sociais virtuais não devem substituir os espaços tradicionais da cidadania activa, devendo antes ser um complemento das suas vivências e um factor de inclusão acrescida. É o momento dos actores ocuparem o palco…

Pela primeira vez em muitos anos, com a eleição dos novos deputados, todos os algarvios têm agora nove razões para sentirem-se representados na Assembleia da República. É obrigação dos eleitos assumirem tais funções com respeito pelos compromissos assumidos com a região e de regular prestação de contas aos cidadãos.

Agora, como sempre, é tempo de fazer política de… olhos nos olhos!

NOTA - Por imperativos editoriais, este texto foi escrito na manhã de 6 de Junho...

3 comentários:

Anónimo disse...

Para ajudar a combater os desvairos de direita e neoliberais, todos os portugueses deveriam ver este documentário a explicar a crise da Grécia e o conceito de "dívida odiosa", são cinco videos legendados em português.

http://www.youtube.com/watch?v=DXuBYn9Vccw&feature=related

OBSERVADOR disse...

Um novo ciclo

Por Mário Soares, in VISÃO, 2011.06.26


O PS precisa de se unir e de uma refundação política e ideológica. É um imperativo de sobrevivência


As últimas eleições legislativas puseram fim a um ciclo político e abriram outro. A esquerda democrática deu lugar à direita conservadora e neoliberal, como se tem vindo a passar em toda a União Europeia. Mas não vale a pena agora falar do passado. A poeira do tempo fará esquecer muitas críticas, erros e acusações. Tudo isso pertence à história. E, naturalmente, o que neste momento, mais nos interessa - a todos - é o presente e o que aí vem no próximo futuro. Vamos ou não sair da crise que nos afeta?

A um governo minoritário de esquerda democrática vai substituir-se uma coligação maioritária de dois partidos de direita, com grandes diferenças entre si, como se viu durante a campanha eleitoral. Mas a grande crise monetária e económica, desencadeada pelos mercados especulativos que atacaram Portugal, depois da Grécia e da Irlanda, não parece poder resolver-se, facilmente, com os empréstimos - e os altos juros - com que a troika nos brindou. Eis um problema sério. Há compromissos a que nos obrigámos - não só os partidos que estão no poder, também o PS - e datas a cumprir. Não o podemos esquecer. Mas a principal responsabilidade incumbe agora ao governo, do qual se espera competência, rapidez na ação, bom senso e coragem.

A tarefa, todos o sabemos, não vai ser nada fácil. O dinheiro escasseia e as exigências da troika são demasiado monetaristas, embora de momento necessárias. Por isso, temos também de saber evitar a recessão, diminuindo drasticamente o desemprego, o despesismo, em todos os domínios, e dar de novo confiança às pessoas. Se assim não for, juntamos às crises com que nos debatemos - incluída a política - uma crise social que pode ser gravíssima. Vejamos com atenção o que se tem passado na Grécia, em vários países europeus e na própria Espanha, a braços, também, com uma mudança política à vista e um manifesto mal-estar.

Em Portugal, os partidos da esquerda radical, com o seu irrealismo, parece terem perdido o rumo e os horizontes políticos. O terem recusado falar com a troika foi um erro que lhes vai custar caro, porque lhes retirou a idoneidade política. Em relação ao PCP, julgo que Álvaro Cunhal não teria praticado um erro semelhante. Tinha outra elasticidade tática, como várias vezes demonstrou. Quanto ao Bloco de Esquerda, além da perda significativa de votos, provocou uma crise interna que não vai ser fácil esquecer.

O PS, no plano político, continua a ser a grande força da Oposição. Mas menos - diga-se - no plano social. O que deve ser corrigido. A saída voluntária de Sócrates foi um ato de bom senso e abriu a porta a dois candidatos a líder que têm a vantagem de ser pessoas inteligentes, experientes e honestas. Não se irão zangar, penso, qualquer que seja o resultado. Julgo até que serão capazes de colaborar, como é conveniente que façam.

O PS precisa de se unir e de uma refundação política e ideológica. Os tempos mudaram e vão continuar a mudar muito. É um imperativo de sobrevivência. A União Europeia vai ter de mudar radicalmente, sob pena de se desintegrar. É outro dos nossos grandes problemas. O PS deve ter uma conceção própria do que será a União Europeia de amanhã e tem de saber bater-se por ela. Tem de participar ativamente no plano político, ideológico e também social, no Partido Socialista Europeu e de ter em grande atenção o movimento social europeu (sindicatos, cooperativas e associações cívicas). Porque é por estes dois pilares que vai passar o futuro. O PS e os seus militantes devem preparar-se, neste intervalo salutar do poder, para participar ativamente no futuro europeu que aí vem, necessariamente. E, assim, poder contribuir, no momento próprio, para a construção do nosso futuro português.

JG. disse...

Julgo que, com esta deliberação do órgão máximo do PS-Algarve entre congressos, está alcançado plenamente o objectivo preconizado na crónica de opinião oportunamente aqui divulgada. Ganhou o PS, ganhou o Algarve!

"Comissão Política da Federação do PS delibera por unanimidade realização de Congresso Extraordinário

A Comissão Política da Federação do PS Algarve aprovou ontem, por unanimidade, uma moção apresentada por Miguel Freitas, no âmbito da qual foi deliberada a realização de um Congresso Extraordinário, logo após a conclusão do processo de eleição do novo Secretário-Geral do Partido.

A proposta foi aprovada na Comissão Política convocada pelo Presidente da Federação que, face aos resultados do Partido Socialista nas eleições Legislativas de 5 de Junho, considera impreterível encetar um processo de análise e reflexão que conduza o Partido a uma nova dinâmica na região algarvia.

"É necessário criar desde já todas as condições para, em tempo útil, organizar e unir o Partido Socialista para o grande desafio que serão as eleições autárquicas de 2013", sublinha Miguel Freitas, defendendo que as eleições federativas devem ser antecipadas.

O líder socialista também é claro quando refere que "a eleição do Presidente da Federação e dos órgãos regionais do Partido não pode, nem deve, sobrepor-se à lógica e ao processo de eleição nacional".

De acordo com a moção aprovada ontem, a Comissão Política da Federação deliberou a realização de um Congresso Extraordinário sem competência eletiva para o Presidente da Federação, o qual deverá ser eleito por sufrágio direto.

Na sequência desta decisão será realizada, logo que encerrado o processo de eleição nacional, nova Comissão Política da Federação, com vista à deliberação do calendário eleitoral para eleição da Comissão Organizadora do Congresso e aprovação dos regulamentos para a eleição do Presidente da Federação e dos Delegados ao Congresso.

O Gabinete de Imprensa (do PS-Algarve)
Faro, 18 de Junho de 2011"