Estados de alma, intervenções e sinais de Tavira, do Algarve e de todo este mundo... e alguns raios de Sol!
sábado, novembro 05, 2005
Reforma de fundo?!
Na sua edição de hoje, o semanário Expresso faz uma longa e necessária reflexão com o secretário de Estado Eduardo Cabrita sobre a administração local em Portugal, na qual são abordadas a dimensão dos municípios e das freguesias, o seu funcionamento, eficácia, relacionamento institucional e, principalmente, a boa utilização dos recursos escassos do Estado e a sua adequação aos fins...
Passados quase dois séculos sobre a reforma de Mouzinho da Silveira, da qual resultou a extinção de 466 concelhos (Decreto de 6 de Novembro de 1836), é bom que o Governo procure aprofundar esta reflexão e mobilize os portugueses para os seus benefícios. Aliás, foi o próprio Presidente da República quem lançou as bases para este processo aquando da discussão da proposta de Lei de Criação do Município de Canas de Senhorim, que viria a ser congelado!
Perante a necessidade de reformar a estrutura da despesa pública na sua globalidade de forma a imprimir uma nova dinâmica de crescimento económico, já defendi por aqui uma reforma profunda da actual Lei das Finanças Locais, com uma clara identificação dos responsáveis pela aplicação dos impostos e dos seus beneficiários directos, com a atribuição de mais poderes aos municípios para estabelecerem medidas de discriminação positiva para angariar investimento privado e aumentar a oferta de emprego, para combater assimetrias regionais e potenciar o desenvolvimento local, para melhor gerir a participação das autarquias locais no esforço dos contribuintes para o funcionamento do Estado, por exemplo...
O Expresso de hoje procura lançar alguma luz sobre os critérios que vão fundamentar a extinção / absorção de muitos municípios e freguesias. Há hoje largas dezenas de municípios com menos de dez mil habitantes e quase duas mil freguesias que não atingem o milhar de habitantes e outras centenas para lá se encaminham...
No caso particular do Algarve, é referida a necessidade de repensar a viabilidade futura de municípios como Alcoutim, Aljezur, Castro Marim, Monchique ou Vila do Bispo, bem como a coexistência do município com a única freguesia de São Brás de Alportel, que há muito perderam dinamismo demográfico e que mostram sérias dificuldades em fixar investimentos que contrariem aquela tendência...
Sabendo-se que a competência desta reforma estrutural é exclusiva da Assembleia da República, é certo que o ministro António Costa e a sua equipa têm nas mãos um dossier explosivo. Para levar esta missão a bom termo, será necessário conjugar toda a habilidade política com uma sensibilidade quase sobrenatural, mas acredito que vão empenhar-se neste processo com coragem e determinação!
PS - Aos meus caros leitores, principalmente aos que se interessam por estas coisas da Administração Pública, desafio-vos a ler o artigo do Expresso e convido-vos a deixarem os vossos comentários e contributos para esta reflexão de utilidade... nacional!
Nos últimos anos tem sido "um fartar vilanagem, não há aldeola ou monte que não queira ser vila ou cidade.
ResponderEliminarMesmo que fiquem descontentes com a promoção muitas vezes imerecida, aspiram logo à independência administrativa, arranjando sempre uns deputados que apadrinhem a apresentação do respectivo Projecto de Lei na Assembleia da República.
Os tristes e lamentáveis episódios relacionados com a "promoção" de Canas de Senhorim foram o prólogo das aberrações das autárquicas em Felgueiras ou em Gondomar, por exemplo, evidenciando à saciedade o caciquismo miserável que continua latente no colectivo português.
Mais uma vez, os governantes que derem a cara por esta reforma vão ser apodados de centralistas e de anti-democratas, mas nem metade dos concelhos e das freguesias têm razão de existir.
No Algarve, são conhecidos os presidentes de câmara que não moram nos municípios que deveriam dirigir e sabe-se muito bem quem são aqueles que passam grande parte dos seus dias por Faro ou em Lisboa, a tratar da vidinha, dignando-se a visitar os seus "súbditos" nos dias das esporádicas reuniões de câmara!