quarta-feira, novembro 30, 2005

Cruzou por nós até há 70 anos! Ficou.


Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...)

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma; sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

(in Poesias de Álvaro de Campos, Lisboa: Edições Ática, 1980, pp.126-129)


PS: Completam-se hoje 70 anos sobre a morte do Poeta!

7 comentários:

  1. Resolvi Colocar uma Sondagem no Blog a Nivel World Wide Web ...

    Para que vocês possam-me dizer com toda a Sinceridade, Honestidade e Competência ...
    Com Quem é que Eu pareço Mais, OK ...!?

    Mil Bjks da vossa Matilde ...
    E um Bom Feriado!

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  2. Uma merecida homenagem.
    Um abraço

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  3. 70 anos passados e os seus livros não ganham pó nas nossas estantes.

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  4. Passei por aki e deixo votos de um bom fim de semana.
    Bjx

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  5. é o que mais me custa, sabêlos pedintes por profissão, às vezes ainda crianças e sem vontade de outra vida. um dos maiores males da sociedade moderna está na pedintodependência instaurada

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  6. Do vale à montanha

    Do vale à montanha
    Da montanha ao monte
    Cavalo de sombra
    Cavaleiro monge
    Por casas, por prados
    Por quinta e por fonte
    Caminhais aliados

    Do vale à montanha
    Da montanha ao monte
    Cavalo de sombra
    Cavaleiro monge
    Por penhascos pretos
    Atrás e defronte
    Caminhais secretos

    Do vale à montanha
    Da montanha ao monte
    Cavalo de sombra
    Cavaleiro monge
    Por plainos desertos
    Sem ter horizontes
    Caminhais libertos

    Do vale à montanha
    Da montanha ao monte
    Cavalo de sombra
    Cavaleiro monge
    Por ínvios caminhos
    Por rios sem ponte
    Caminhos sozinhos

    Do vale à montanha
    Da montanha ao monte
    Cavalo de sombra
    Cavaleiro monge
    Por quanto é sem fim
    Sem ninguém que o conte
    Caminhais em mim.

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  7. PRECE

    Senhor, a noite veio e a alma é vil.
    Tanta foi a tormenta e a vontade!
    Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
    O mar universal e a saudade.

    Mas a chama, que a vida em nós criou,
    Se ainda há vida ainda não é finda.
    O frio morto em cinzas a ocultou:
    A mão do vento pode erguê-la ainda.

    Dá sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia –,
    Com que a chama do esforço se remoça,
    E outra vez conquistemos a Distância –
    Do mar ou outra, mas que seja nossa!

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